17 de Dezembro

01:45

A menina estava deitada ouvindo a briga no quarto ao lado. As vozes alteradas de seus pais se tornaram comuns nos últimos tempos, e dormir com isso era tão normal quanto dormir com o barulho da chuva lá fora. A menina se preocupava particularmente com a irmã mais nova, que, deitada na cama de baixo, tampava os ouvidos, mesmo que isso não diminuísse em nada os gritos.
Deitada, a garota sonhava com o dia em que faria dezoito anos e poderia enfim ir embora, pensando sobre como o irmão teve sorte por se mandar cedo. Ela tinha quinze anos e uma esperança insana de que o tempo passaria depressa. Fechou os olhos e as lágrimas caíram quase que imediatamente e sem qualquer cerimônia, e ela lembrou de um trecho de uma música de David Byrne que ouviu em algum lugar: "Vidro, concreto e pedra. É só uma casa, não um lar."
O quarto estava escuro e ela desbloqueou o celular para se distrair. A pessoa com quem queria desabafar já dormia há tempos, e a menina se sentiu só. Porque nós nos sentimos assim quando queremos conversar com alguém e esse alguém não está lá. Ela sentiu o choro voltar, não descendo pelos olhos, mas subindo pela garganta. Engoliu.
Ela respirou fundo, porque estava cansada em vários aspectos e triste em vários outros, e desejava que as coisas fossem melhores e que ela não precisasse mais lidar com a família, que mesmo que amasse, lhe fazia tão mal. E por mais que tentasse, não conseguia imaginar um futuro em que esses problemas não importassem. Ela se sentia incômoda por querer mais, ter mais, ser mais. Se sentia incômoda porque não sabia como conseguir isso.
Ela voltou a fechar os olhos, e dessa vez não se importou em deixar as lágrimas molharem seu rosto. Virou-se na cama, agora encarando a parede, e fez a coisa mais díficil do mundo: sorriu. Sorriu porque se sentiu fortalecida acima de tudo. Sabia que por mais que dissesse que não estava mais aguentando, ainda estava firme. Ela ainda conseguia ficar de pé, não é? Ainda saia da cama pela manhã, mesmo que sem muita coragem. E ainda tinha ânimo para se olhar no espelho e sussurrar que tudo ficaria bem.
E, ainda chorando, a menina dormiu, lembrando-se da promessa que fizera a si mesma noites atrás: "Hoje você dorme chorando, mas prometo que chegará o dia em que dormirá sorrindo."

dark, rain, raindrops

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6 comentários

  1. De onde eu venho chamam textos como esse de coisas maravilhosas :o
    Super profundo e tocante, além de sensibilizador! Amei! <3

    -Manu Mendes
    Pensamentos Agridoces

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    Respostas
    1. Meu Deus, quanto elogio <3
      Brigada, Manu! Te adoro :D

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  2. "Hoje você dorme chorando, mas prometo que chegará o dia em que dormirá sorrindo."
    Você é incrível

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